O artigo de hoje será sobre derivativos da bolsa de valores, tema de extrema importância. 

É preciso deixar especificado que vamos falar de opções sobre as ações da bolsa de valores (B3), pois existem diversos tipos de opções sendo negociadas no mercado OTC (over-the-counter), conhecido popularmente no Brasil como mercado de balcão. 

Existem opções de:

  • índice, 
  • dólar, 
  • ouro 
  • e muito mais. 

Desde que tenha oferta e demanda, é possível negociar opções de qualquer coisa ou tipo. 

Isso ficou bem explicito no filme A Grande Aposta, com Christian Bale, Steve Carell e Ryan Gosling. 

As operações com opções conhecidas como “travas” – trava de alta ou trava de baixa – são estratégias agressivas que conseguem proporcionar uma relação risco/ganho de 2 para 1, 3 para 1 ou até 10 para 1, se você montar uma trava bem fora do dinheiro ou muito dentro do dinheiro.  

Isso mesmo. Estou falando de operações que você pode “lucrar” 100%, 300% ou até 1.000%.  

São percentuais expressivos, mas dentro desses valores muito atrativos se esconde um risco que é necessário sempre estar atento.  

Conhecendo os tipos de operações com opções

Antes de falar sobre as travas, preciso deixar claro que, na minha concepção, no mercado de derivativos, existem apenas dois tipos de operações:

  • as de investimento (Hedge ou de maximização dos lucros sem elevar seus riscos) e
  • as operações especulativas (que costumo chamar de operação tudo ou nada ou “apostinha”). 

As operações com opções – consideradas como investimentos em boa parte das vezes – consiste na compra das ações, abrindo posição em opções desse ativo objeto, logo em seguida, podendo ser opções CALL ou PUT.

Nesse seguimento de estratégias, podemos encontrar o Lançamento Coberto, Fence, Collar, Borboleta e muito mais. 

Nas operações especulativas, estratégia tudo ou nada, podemos encontrar as Arrows, Stradlle, compra a seco e as travas.  Falei desse tema em outro artigo que foi publicado anteriormente. 

As operações de travas são algumas das estratégias mais rentáveis e mais especulativas que os traders iniciantes conseguem montar e vou explicar o porquê. 

Uma operação de trava de alta com CALL, com potencial de lucro 100%, 500% ou mais, precisa ser montada “no dinheiro” ou levemente fora do dinheiro. Mas o fato é que, nessa configuração mencionada acima, se o preço das ações, ativo objeto não subir, todo o seu capital investido nessa trava será perdido.  

A mesma regra se aplica para as travas de baixa com PUT. Se forem montadas no dinheiro ou levemente fora do dinheiro e as ações não baixarem o seu preço, todo capital colocado nessa trava de baixa com PUT será perdido. O que podemos deduzir dessa operação, diferentemente de uma operação Seagull, por exemplo, é que para termos lucro nessa estratégia, o papel necessariamente precisa se movimentar na direção esperada. Daí você pode falar: mas é claro, essa é a lógica do mercado!  Exatamente. É a lógica do mercado de ações e não do mercado de derivativos. 

Ainda dentro das operações de travas, trava de alta ou trava de baixa, se montadas bem dentro do dinheiro a lógica muda bastante. Vamos pegar como exemplo uma trava de alta com CALL bem dentro do dinheiro e uma trava de baixa com PUT também bem dentro do dinheiro. Nesses dois casos, diferentemente do parágrafo acima, as ações, ou seja, o ativo objeto não precisa se movimentar para lugar algum e você já pode ter o lucro máximo da estratégia. 

Parece confuso, mas é muito simples na verdade. Nesse caso, você ganharia o theta da operação. Uma trava de alta com CALL bem dentro do dinheiro, desde que o preço das ações não caia muito, se ele subir ou simplesmente ficar parado ou lateral, você ganha. Na trava de baixa com PUT dentro do dinheiro também, se o papel não subir, mas ao invés disso ficar parado, cair levemente ou abruptamente, você ganha do mesmo jeito. A diferença está na relação risco/ganho.  

https://investidorindependente.com/wp-content/uploads/2019/03/trava-de-alta-opcoes.png

Nas operações de travas que você pode ganhar percentuais expressivos de rendimentos, como 1.000%, você obrigatoriamente precisa de movimento para alcançar esse lucro da estratégia. 

Na operação de trava de alta com CALL ou de trava de baixa com PUT, ambas dentro do dinheiro, você não precisa de movimentação alguma nos preços das ações, mas o lucro máximo em comparação é muito menor. 

Enquanto um tipo de estratégia pode gerar mais de 500% de lucro, a outra operação de trava bem dentro do dinheiro mencionado acima, vai proporcionar um lucro de 20%, 30% ou, quem sabe, 50% se tiver muita sorte, mas com um risco de prejuízo de até 10 vezes o seu lucro máximo. 

Nesse caso, a relação risco/ganho fica até menos interessante em comparação com as travas fora do dinheiro.  Isso ocorre devido à probabilidade de o alvo da estratégia ser atingido ou não.  

Recebe-se mais, por um objetivo que esteja mais longe de ser atingido e recebe-se menos por um objetivo que esteja muito próximo e não muito distante nos preços do momento da montagem.  

https://investidorindependente.com/wp-content/uploads/2019/03/trava-de-baixa-opcoes.png

Esse assunto pode parecer coisa mais óbvia, mas acredite, nesses mais de 10 anos operando no mercado de renda variável e lecionando para muitos alunos, esse era o tipo de erro mais comum que me deparei.  

O investidor, quando realizava uma simulação de montagem de uma trava de alta, visualizava o seguinte resultado: lucro máximo de R$ 900,00 e risco máximo de R$ 100,00. 

Ele olhava para aquela proporção e falava para si mesmo: “já que o risco é tão pequeno, vou montar uma estratégia onde eu possa ganhar R$ 9.000,00 arriscando apenas R$ 1.000,00”.  

Não há nada de errado em arriscar dessa forma, a não ser o fato de ele esquecer que as ações do ativo objeto precisariam subir mais de 10% desde a sua montagem até o vencimento para “talvez” ele ter o lucro. Nesse exemplo hipotético, principalmente se não for realizada a análise correta, a maior chance é que esses R$ 1.000,00 virem pó.

Na outra ponta existe também uma verdade muito difícil de lidar para alguns traders. Alguns estão acostumados a montar aquela outra estratégia que mencionei, aquele bem dentro do dinheiro. 

Apesar do lucro não ser tão expressivo, em comparação com as opções fora do dinheiro, pois não trabalha na casa dos 500%, mas sim com 20%, 30% ou algo parecido, é muito certo que você vai colocar esse lucro no seu bolso. 

O investidor monta uma vez e fala para si mesmo: “nossa, que fácil, vou montar de novo, mas dessa vez vou dobrar a posição”! 

Daí ele ganha de novo, a autoestima vai lá em cima e ele fala dessa vez: “agora vou triplicar a posição, é dinheiro fácil isso”! 

Até que em determinado momento, ele é pego pela lógica de Nassim Nicholas Taleb, descrita em seu livro “The Black Swan”. Esse evento acaba sendo tão forte que o faz devolver o lucro de todas as operações vencedoras e às vezes até perdendo o principal investido. 

Conclusão

Para toda e qualquer operação especulativa com opções, fique atento a sua real exposição de mercado. Ainda utilizando as travas como exemplo, se for uma trava com relação risco/ganho ótima, de 10 para 1, por exemplo, verifique quanto às ações do ativo objeto precisam subir ou cair para você computar os lucros da estratégia. 

Se existe uma análise por trás, seja ela análise gráfica ou análise fundamentalista que justifique essa expectativa, nesse caso você até pode arriscar um pouco mais, mas não é porque o lucro nominal de uma trava é muito maior que o lucro da outra no mesmo papel, que ela é a mais interessante.  

Uma dinâmica muito parecida se aplica para aquelas travas bem dentro do dinheiro que mencionamos, não é porque parece um “dinheiro fácil”, que você pode assumir um risco elevado. Nem sempre que você monta, você vai ganhar. O mercado pode te pegar de surpresa. 

Lembre-se de sempre estar fundamentado para realizar suas operações com opções, sejam as especulativas ou as de hedge, pois nesse formato as suas chances de sucesso e de caminhar fora da manada são bem maiores.  

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